Na tarde de Domingo, dia 6 de Dezembro de 2009, sob a presidência de D. Gilberto, Bispo de Setúbal, realizou-se no auditório da Anunciada, em Setúbal um Encontro Diocesano de todos os Movimentos e Obras do Apostolado dos Leigos da nossa Diocese. 14 movimentos deram-se a conhecer mutuamente e testemunharam como vivem o sacerdócio comum dos fiéis nas várias actividades apostólicas, assim como entendem o sacerdócio ministerial. Publicamos a seguir as respectivas Exposições.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O SACERDÓCIO COMUM DOS FIÉIS

Intervenção do Vigário Geral da Diocese
Pe. José Lobato



Introdução
A Igreja tem sacerdotes, mas ela é, sobretudo, um POVO SACERDOTAL! Que quer isto dizer?

a) No Antigo Testamento
Ao Povo de Deus, no Antigo Testamento, era já reconhecido este título. Lê-se no livro do Êxodo, no contexto da aliança no Sinai: «A partir de agora, se Me obedecerdes e respeitardes a minha aliança, considerar-vos-ei como minha propriedade entre todos os povos... Sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Ex 19, 5-6). E, mais tarde, em Isaías: «Sereis chamados sacerdotes de Iavé, designar-vos-ão como ministros do nosso Deus» (Is 61, 5-6).
Três aspectos deste sacerdócio comum estão sublinhados nestes textos: trata-se de uma consagração-pertença a Deus, de uma santidade essencial que resulta dessa consagração e de um serviço ("ministros") que o povo presta a Deus dando-O a conhecer aos outros povos através do bom testemunho da sua fidelidade à Aliança. Estes 3 elementos (consagração, santidade e fidelidade) são constitutivos do Povo de Deus.

b) No Novo Testamento
O Povo messiânico, o Povo de Deus da nova Aliança, nascido do Baptismo, confirmado pela unção do Espírito Santo e alimentado com o Pão eucarístico, continua a ser chamado, e agora por motivos ainda mais fortes, Povo sacerdotal.
Esta expressão, tal como no A.T., diz menos respeito a uma função e mais a uma qualidade, uma característica fundamental e constitutiva do Povo de Deus, a Igreja. A qualidade sacerdotal deste povo é uma graça, uma eleição, uma dignidade recebida de Cristo. Mais: a condição sacerdotal deste povo é fruto da identificação com Cristo. A Igreja é Corpo de Cristo: tudo o que Cristo é está na Igreja. Cristo é o Profeta, então a Igreja tem uma qualidade profética; Cristo é Rei, enquanto Senhor a quem o Pai entregou toda a criação para a recapitular e salvar, então a Igreja tem uma qualidade real enquanto integra esse Reino; Cristo é o Sumo Sacerdote da nova Aliança, então a Igreja tem uma qualidade sacerdotal.


1. Cristo Sacerdote

Em que é Cristo "Sacerdote"? É o Mediador entre Deus e os homens. A mediação está em tudo o que é, o que disse e fez. O sacerdócio de Cristo exprime-se logo na incarnação no seio de Maria e na sua apresentação/consagração no templo. Depois, no seu baptismo, na sua pregação, na sua obediência filial ao Pai e, de modo particular, no sacrifício da cruz e ressurreição.
É na sua condição humana que Jesus é sacerdote, mas o fundamento do seu sacerdócio é único: é o Filho de Deus: «não foi Cristo que Se atribuiu, a Si mesmo, a glória de Se tornar sumo sacerdote, mas recebeu-a d'Aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei» (Heb 5,5). Jesus foi enviado pelo Pai para salvar a humanidade através da sua entrega até à morte na cruz, da qual ressuscitou glorioso e pela qual nos lava do pecado e, cheio de misericórdia, nos conduz para junto do Pai, com a força do Espírito Santo. «Sim, Ele é, exactamente, o Sumo Sacerdote de que precisávamos, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, elevado acima dos céus, que não precisa diariamente, como os outros sumo sacerdotes, de oferecer vítimas, em primeiro lugar, pelos seus próprios pecados e só depois pelos do povo, porque o fez, de uma vez por todas, oferecendo-Se a Si mesmo» (Heb 7, 26-27).
Cristo é, pois, Sacerdote, na sua condição de Filho de Deus feito homem. A humanidade do Filho de Deus é "ungida" pelo Espírito Santo, está totalmente unida a Deus (união hipostática). A humanidade de Jesus é o início de um tempo radicalmente novo que já contém em si - e comunica - a eternidade bem-aventurada, a Jerusalém celeste. Esta qualidade sacerdotal de Cristo é participada por todos os baptizados: estes são libertos do pecado, santificados pela unção do Espírito, consagrados a Deus, filhos de Deus e herdeiros da eterna bem-aventurança.

Cristo é também Sacerdote na oferta de Si mesmo na cruz, no sacrifício em que Ele, sendo a vítima oferecida, é também o oferente, o Pontífice da nova Aliança que preside a essa oferta.

Na igreja a participação no Sacerdócio de Cristo tem duas modalidades que correspondem às duas dimensões do Sacerdócio de Cristo.

A qualidade sacerdotal de Cristo (humanidade consagrada a Deus e santificada pela unção do Espírito Santo) é participada por toda a Igreja, como povo de Deus. O sacerdócio comum de todos os baptizados tem uma dimensão comunitária, não individual. Cada um de nós participa no sacerdócio de Cristo enquanto membro do povo santo de Deus: povo escolhido, chamado e enviado por Deus a ser sinal e instrumento da salvação no mundo.

O ministério sacerdotal de Cristo, como oferente, pontífice da nova Aliança, que Se oferece a Si mesmo na cruz para remissão dos pecados, é exercido pelo sacerdócio apostólico: os 12 que Jesus escolheu e consagrou assim como os seus sucessores (os bispos) e os presbíteros que são cooperadores da ordem episcopal, também eles consagrados, em grau inferior, pelo Espírito Santo pelo sacramento da Ordem.

A qualidade sacerdotal da Igreja é continuamente alimentada e vivificada pelo sacerdócio ministerial, quer dizer, Cristo enquanto Pontífice e cabeça da Sua Igreja, Seu Corpo, continuamente a fortalece e renova na santidade, através daqueles que Ele chama e consagra, em continuidade com o chamamento e consagração dos apóstolos.


3. A Igreja, Povo Sacerdotal

Em Israel não havia sacerdócio sem templo nem sacrifício.
Na nova Aliança isto continua a ser verdade, mas de maneira diferente.

3.1 O templo é agora edificado com pedras vivas: «Aproximai-vos d'Ele, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção de um edifício espiritual, por meio de um sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais que serão agradáveis a Deus, por Jesus Cristo» (1 Pd 2, 4). O novo templo em que Cristo exerce o seu sacerdócio somos nós, a Igreja! Ser povo sacerdotal é viver em união com Cristo e, n'Ele, com a Santíssima Trindade.

3.2 Na nova Aliança, o sacrifício é essencialmente a Eucaristia, na qual Cristo permanentemente Se oferece e nos oferece com Ele ao Pai. Como oferente, o sacerdócio de Cristo é sacramentalmente exercido por ministros ordenados. Como vítima oferecida, Cristo associa a Si toda a Igreja que com Ele se oferece ao Pai. Na Eucaristia estão necessariamente presentes as duas modalidades de participação no Sacerdócio de Cristo e nela está presente toda a vida dos cristãos. Dela nascem e recebem força o ser e o agir da Igreja; a ela conduzem todos os caminhos, mesmo os mais acidentados, da vida dos cristãos.

4. Consagrados a Deus

Consagrados a Deus, «já não sois hóspedes, nem peregrinos, mas concidadãos sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo Cristo como pedra angular. N'Ele qualquer construção bem ajustada cresce para formar um templo santo no Senhor, em união com o qual vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito, habitação de Deus» (Ef 2, 19-22).
A consagração quer dizer santidade. A santidade é, antes de mais e sobretudo, comunhão com Deus. A Igreja é ícone da Santíssima Trindade, espaço de santidade. A santidade de cada um de nós não é uma conquista pessoal, mas dom oferecido à Igreja. Somos santos, enquanto membros da Igreja que acolhe a comunhão de vida com Deus oferecida por Cristo. Não conquistamos a santidade fazendo boas obras; somos capazes de fazer boas obras porque e na medida em que acolhermos o dom da santidade pela participação no sacerdócio de Cristo, na Igreja.
Tal como o sacerdócio de Cristo é fruto e expressão da misericórdia do Pai que O enviou e no-lO entregou para nossa salvação, também o sacerdócio de participação, o sacerdócio comum dos fiéis a Cristo – e igualmente o sacerdócio ministerial – se exprime na caridade: na escuta atenta da Palavra de Deus; no diálogo amoroso da oração de louvor, de contemplação de intercessão; na participação consciente e activa na liturgia; na prática corajosa das bem-aventuranças; na observância dos conselhos evangélicos; no apostolado laical; na opção corajosa pela vocação a que Deus nos chama, incluindo a da consagração no celibato pelo Reino de Deus; na vida familiar; na comunhão fraterna e na missão pastoral da comunidade diocesana e paroquial; na evangelização; na caridade organizada (caritas, centros sociais, grupos de vicentinos e visitadores prisionais, pastoral da saúde…); na entrega diária da vida a Deus, incluindo, se for o caso, o martírio.
Este é o dom mais precioso que Deus guardou para nos oferecer pelo Seu Filho. Tão precioso que, para o garantir e fortalecer na Igreja, instituiu, ao seu serviço o sacerdócio ministerial. Entre as duas modalidades de sacerdócio não existe uma lógica de poder, mas de serviço.
Os ministros ordenados são mediadores de Cristo. Esta modalidade de sacerdócio não é de natureza funcional, mas sacramental. Isto quer dizer que os ministros ordenados garantem na Igreja a presença e a actuação pessoal de Cristo independentemente das suas qualidades humanas, embora estas sejam importantes para tornar mais visível a mediação que eles exercem.
Se o dom maior de Deus é fazer-nos participantes da sua própria Vida, o dom do sacerdócio ministerial não é menor, pois sem este não haveria o primeiro. Sem o sacerdócio ministerial poderia talvez ainda haver grupos de pessoas que seguissem os ensinamentos e os exemplos de Cristo, mas não haveria Igreja. Não haveria Eucaristia, nem os outros sacramentos. Com a Palavra de Deus proclamada não seria simultaneamente pronunciada a certeza de que tal Palavra se realiza no hoje das nossas vidas. Não seríamos a Igreja que saiu das mãos e do coração de Jesus, pois nos faltaria a Sua presença viva e actuante em nós e nas nossas comunidades – essa presença que nos é garantidamente oferecida através do sacerdócio ministerial.

5. Conclusão: construamos uma cultura vocacional

Na oração sacerdotal, no evangelho de S. João, Jesus pediu ao Pai por todos os seus discípulos de todos os tempos. Algumas das suas palavras referem-se aos seus apóstolos (e seus sucessores): «Pai, consagra-os na Verdade; a Verdade é a Tua palavra. Assim como Tu me enviaste ao mundo, Eu também os envio ao mundo…» (Jo 17, 17). Consagração… envio/missão… O sacerdócio de Cristo é vivido nesta dupla dimensão. Assim também o sacerdócio participado por todos os baptizados e também o sacerdócio ministerial: somos consagrados e enviados.
É na escuta íntima de Deus, descobrindo-nos por Ele consagrados no Seu amor, que descortinamos os seus desígnios sobre cada um de nós, o seu chamamento, a nossa “vocação”, ao mesmo tempo que escutamos a Sua palavra de envio, de missão.
A existência cristã, individual e comunitária, desenrola-se nestas duas dimensões: o reconhecimento do amor de Deus que nos envolve e consagra; a missão que somos chamados a cumprir neste mundo. Nem sempre, porém, vivemos este dinamismo. Nas “Bases para a Pastoral Vocacional” (Abril, 2004), os Bispos de Portugal falam de uma cultura de chamamento – ou vocacional – a criar entre nós: “passar de uma atitude da espera e do acolhimento dos que se sentem chamados e se oferecem para as diversas vocações, especialmente para o sacerdócio ministerial e para a vida de especial consagração religiosa e secular, a uma pastoral da proposta directa, do convite e do chamamento pessoal. (…) o apelo vocacional, deve ser uma acção que envolve toda a comunidade nas suas diversas expressões: famílias cristãs, grupos, movimentos, paróquias, dioceses, institutos religiosos e seculares (nºs 21 e 22).
Neste Ano Sacerdotal, agradecemos a Deus o dom do sacerdócio baptismal, no qual todos participamos da consagração e missão de Cristo. Agradecemos também o dom do sacerdócio ministerial sem o qual não seríamos Povo sacerdotal, consagrado, santificado e enviado.
Rezemos pelo nosso Bispo e pelos nossos padres. Não apenas neste ano, mas sempre, e juntemos à nossa oração o compromisso de sermos Igreja diocesana viva, Povo sacerdotal nesta Península de Setúbal, consagrado a Deus, na comunhão fraterna entre todos e na ousadia e criatividade da missão de evangelização daqueles, e são muitos, que não conhecem Cristo.
Não esqueçam, sobretudo os fiéis leigos a sua missão específica que o Papa Paulo VI deixou clarificada no memorável nº 70 da sua Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi”: “Os leigos, a quem a sua vocação específica coloca no meio do mundo e à frente de tarefas as mais variadas na ordem temporal, devem também eles, através disso mesmo, actuar uma singular forma de evangelização. (…) O campo próprio da sua actividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos "mass media" e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento”.

É neste vasto e complicado mundo que os fiéis leigos são chamados a exercer o sacerdócio de que estão revestidos e para o qual foram consagrados por Cristo, desde o Baptismo. E porque é exigente e árdua tal missão, Cristo chama e escolhe hoje, como outrora fez com os primeiros apóstolos, ministros que, em Seu nome, sustentem, consolem e fortaleçam o Seu Povo, o Povo que Ele ama e por quem deu o Seu sangue na cruz.

Pe. José Lobato

1 comentário:

  1. Dou graças a Deus pela boa tecnologia que nos permite estar mais próximos, nós que fomos ungidos pelo Espírito Santo no nosso batismo e por isso somos um com Jesus Cristo o filho muito amado de Deus Pai. N'Ele somos também filhos do mesmo Pai e formamos um só corpo.
    Este blog pretende ser um ponto de encontro de todos os que se sentem irmanados no mesmo Espírito.
    A todos os irmãos, de todos os movimentos, da nossa querida diocese de Setúbal, que por aqui passarem os meus votos de Alegria e Paz.
    José Gomes dos Convívios Fraternos

    ResponderEliminar

Seguidores